Muito aos poucos vamos percebendo através dos artigos dos jornais que o ministro tem desde inicio uma ideia muito pessoal o que quer fazer. Encomenda estudos, pensa e no dia seguinte manda um despacho.
Estas medidas até que podem muitas delas serem correctas, mas caímos sempre no ponto principal o S.N.S.
Do ponto de vista do utilizador: cada vez mais caro e mais inacessível
Do ponto de vista do prestador: cada vez mais desmotivante por não saber o que lhe vai acntecer e se ficar numa unidade menos diferenciada o que vai fazer.
Do ponto de vista de desenvolvimento regional: todas as concentrações no litoral nenhuma no interior.
O GRANDE PROBLEMA É QUE ESTE PONTO DE VISTA DA CONCENTRAÇÃO É VALIDO PARA AS ESCOLAS, INDUSTRIA, CIENCIA ETC. OU SEJA ADEUS INTERIOR QUE FICA COMO ZONA DE CAÇA TURISTICA E VISITAS TURISTICAS AOS HOMINIDIUS INTERIORES.
sexta-feira, Dezembro 15
Entrevista Miguel Gouveia
Gestão Hospitalar (GH) – Como é que vê as recentes medidas do Ministério
da Saúde? link pdf
Miguel Gouveia (MG)– Há aqui um conjunto de medidas muito grande e um
conjunto muito diferente de problemas que estão na origem destas medidas.
Nós temos uma rede de hospitais que foi delineada nos anos 70 quando as
acessibilidades e a distribuição da população eram completamente
diferentes e que foi delineada, também, para uma altura em que a
tecnologia na área da saúde implicava tempos de internamento hospitalares
relativamente longos. Agora, temos um mapa do País completamente alterado
com novas comunicações que mudam a geografia prática do acesso aos
cuidados de saúde. Ao mesmo tempo, tivemos mudanças radicais na tecnologia
dos cuidados de saúde que fazem com que as demoras médias sejam muito mais
curtas. Além disso, com toda a ênfase no hospital de dia, nas cirurgias
ambulatórias, temos uma utilização muito menor do internamento hospitalar.
Em todo o mundo estão a dar-se revoluções do parque hospitalar, fechar
serviços, fechar hospitais. Sob este ponto de vista, não é mais do que
adequar o ‘stock’ de capital que tínhamos em infraestruturas na área da
saúde às necessidades com as novas tecnologias.
Por exemplo, nos Estados Unidos, o Estado de Nova Iorque está a fechar uma
percentagem relativamente grande dos seus hospitais. O que se está a
passar em Portugal é o que se está a passar noutras parte do mundo.
GH – Nesta área, pelo menos, considera infundadas as acusações de
economicismo?
MG – Sou economista, portanto, uma acusação de economicismo não me faz
chorar muito! Muitas vezes as pessoas atiram com acusações de economicismo
quando querem que outros paguem as contas.
É natural que, da parte do Ministério da Saúde, numa altura em que, nos
últimos anos, as despesas têm continuado a crescer em ritmos superiores
aos do PIB haja alguma preocupação de fazer uma contenção de custos. Temos
esta nova realidade económica e tecnológica relativamente à qual, se não
fizessemos nada, teríamos um sistema de saúde cada vez mais obsoleto
relativamente às necessidades da população. Por outro lado, há um
argumento que os peritos utilizaram - e que o ministro Correia de Campos
invocou várias vezes - que tem sido algo muito estudado na economia da
saúde. A ideia é ter poucos locais onde o volume das intervenções muito
técnicas e muito especializadas é grande. Escolher a concentração é
claramente uma via muito positiva. Há enormes economias de escala,
economias de aprendizagem, que levam a melhores resultados em termos de
saúde, de segurança, em termos de efectividade das intervenções. Todas as
intervenções cirúrgicas e todo o tipo de intervenções tecnologicamente
sofisticadas têm uma grande componente de experiência, de aprendizagem,de
‘on the job training’. Pensar que se podem ter unidades pequenas a fazer
pequenos volumes de intervenções é perfeitamente errado do ponto de vista
da própria qualidade do processo.
GH – Mas é este o caminho para controlar as despesas ou existem outras
áreas de intervenção?
MG – Tem a ver com a própria qualidade técnica dos serviços prestados.
Está muito estudado o facto de intervenções mais diferenciadas, quase todo
o tipo de cirurgias um bocadinho mais complexas, terem muito a ganhar com
a concentração e com elevados volumes. E isto nem sequer tem a ver com
economia mas, sim, com a qualidade técnica dos serviços.
Uma segunda parte, que é a da consolidação hospitalar, tem a ver com o
facto de, com as novas tecnologias, serem precisas menos camas. Não faz
sentido ter hospitais espalhados por todo o lado. Faz sentido ter um
parque hospitalar mais sofisticado e mais pequeno. O que acontece é que
muitos cuidados, que antes eram de internamento, agora levam apenas a
tratamento em ambulatório. O que sobra e que continua a ficar no hospital
é tecnologicamente mais pesado que no passado. Pode-se poupar custos em
alguns serviços, mas esses custos vão surgir onde os mesmos doentes vão
ser tratados de forma tecnologicamente mais sofisticada. Não é nada óbvio
que se gerem, assim, tantas poupanças como isso.
GH – Então onde é que se pode cortar nas despesas da Saúde?
MG – Tivemos duas experiências muito interessantes na Europa – a
experiência finlandesa nos anos 90 e, nos 80, já tinha acontecido a mesma
coisa na Irlanda. São países que, por causa de crises de finanças
públicas, uma situação à qual não somos estranhos, registaram-se mudanças
relativamente radicais no seu sistema de saúde em que, em dois ou três
anos, a percentagem do PIB dedicada à saúde decresceu de forma
significativa – um por cento. O que, no montante global considerado, é
enorme. E, quer no caso da Irlanda quer no caso da Finlândia, essa redução
ocorreu e quando olhamos para a esperança de vida e para todos os
indicadores normais de saúde na população nada foi alterado. Portanto,
aparentemente, foi possível cortar as despesas de saúde em 1% do PIB sem
que seja óbvio que isso tenha tido reflexos maus na saúde da população.
Isto é a prova que existe muita ineficiência no sistema que é possível
retirar. Mas se nós retirarmos, por um passe de mágica, 1%, 2%, 3% de
gordura ao sistema nacional de saúde e o tornamos muito eficiente, a longo
prazo as despesas em saúde vão continuar a crescer imenso. E isso é
razoável por uma razão muito simples: o que o sistema de saúde produz é
tempo e qualidade de vida, que é uma coisa que as pessoas valorizam muito.
Estarmos a gastar muito num sector que produz algo com muito valor não é
necessariamente mau. Os custos são grandes mas os benefícios são ainda
maiores.
GH – Falando de ineficiência, fala-se de desperdício e há áreas em que se
pode cortar, como nos medicamentos. Mas a medida de impôr um tecto de
crescimento de 4% não tem funcionado.
MG – A realidade que existe acerca de todo o tipo de medidas que são
feitas de forma cega e global é sempre a história de apertar um balão
cheio de ar. Apertamos e o balão fica mais pequeno mas, depois, o ar vai
para outro lado.
Tipicamente o que acontece quando temos medidas destas, globais, é que a
indústria, que tem muita criatividade, acaba sempre por encontrar outros
lugares onde fazer crescer a despesa. São medidas que têm sempre impacto a
curto prazo, mas a longo prazo há sempre uma compensação e, no final, a
medida acaba por sempre muito menos eficaz.
Por outro lado, há aqui algumas coisas nas medidas que têm vindo a ser
tomadas que me parecem males menores. Quando estive na comissão de
avaliação dos hospitais SA fiquei com a nítida sensação que, apesar de em
alguns hospitais as comissões de farmácia e terapêutica funcionarem
relativamente bem e serem criteriosas a seleccionar os novos medicamentos
que adoptam, noutros hospitais o critério para comprar novos medicamentos
era praticamente inexistente. Lembro-me de um hospital onde o presidente
do conselho de administração me mostrou uma pilha de pedidos onde, mesmo
que ele só desse autorização para um terço, passávamos de três listas
telefónicas para uma lista telefónica.
Além de tectos gerais, que podem não funcionar muito bem, acho que o que
vai ter mais impacto a longo prazo é que a admissão de novos medicamentos
nos hospitais passa a ser decidida centralmente e não fica sujeita à
discrição de cada hospital. Não é o ideal mas provavelmente é um mal
menor.
entrevista de Marina Caldas, Gestão Hospitalar, Dez 06
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